O sol para

nossas sombras

 

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A Provação De Matias

"Seja mais forte a vossa fé do que os sofismas e as zombarias dos incrédulos, visto que a fé que não afronta o ridículo dos homens não é fé verdadeira." (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XIX, item 11)

 

-"É

-nos relatado que, nos tempos do Cristianismo nascente, após o advento do Pentecostes, quando o fogo sagrado da Espiritualidade baixou entre os homens de boa-vontade, os Apóstolos assumiram a tarefa da difusão da Boa Nova.

"Como a defecção de Judas, o Iscariote, imprimia a necessidade de escolha do substituto, Matias passou a integrar os doze, número representativo das tribos de Israel.

"Humilde e prestativo, o discípulo encarou com invulgar zelo o desempenho da tarefa que lhe fora acometida.

"A sua fidelidade ao amor e ao exemplo de seu Rabi, no entanto, de forma igual a todos os seareiros da Verdade, em todos os tempos, também foi colocada à prova..."

Com tal introdução, cresceu sobremaneira o interesse e a atenção de todos os que tinham aquela feliz oportunidade de ouvir o verbo iluminado de Ananias, excelsa entidade, ensejando encontro de instrução aos candidatos à reencarnação vinculada aos compromissos com a mediunidade, a serviço da caridade e do esclarecimento dos homens.

Na sua simplicidade comovente, o benfeitor de Paulo de Tarso, o convertido, que trocou a cegueira pela luz do Cristo, conseguia emprestar às suas palavras uma densidade vibratória especial, fazendo-nos revivenciar o relatado:

"Ainda em Jerusalém, quando se preparava para enfrentar a áspera tarefa da pregação individual, Matias pôde escutar, de um dos condiscípulos que se agregavam aos escolhidos, a ironia ferina e mal-intencionada:

- "É...escolheram o substituto de Judas, aquele que comprou a corda do enforcamento com as moedas da traição..."

Matias não quis nem olhar para saber de quem era a voz que metalizava em seus ouvidos; fez de conta que não ouvira coisa alguma, e retirou-se quieto, para poder desabafar em choro incontido durante dolorosos momentos de profundas reflexões.

Naquele estado de torpor em que seu espírito se colocou, temperando-se pelo vinagre do momentâneo ressentimento, ao perguntar a si mesmo o que havia feito que justificasse a agressão, sentiu-se levemente tocado e virou-se, constatando a presença de um homem que, em virtude dos olhos lacrimejantes, não reconheceu de imediato.

- "És tu, Mestre! - exclama o abatido discípulo. Vens confortar minha dor?"

- "Matias, não é por acaso que te coloquei entre os meus bem-amados e filhos reconhecidos por nosso Pai. A missão que te dou, e que por mim te dá nosso Pai, precisa ser selada pelo amor que sabe sofrer todas as afrontas, renunciando a si próprio. Não te esqueças de que é preciso carregar a cruz feita pelos homens, para poder abrir a porta estreita dos céus..."

Após um intencional silêncio, Ananias conclui a inesquecível preleção:

- “Matias soube superar a inveja irresponsável, com a humildade dos corações enobrecidos na lição vívida do Ressurrecto, que a tudo e a todos perdoa, porque compreende a realidade de cada um.

“Todos os que planejam a reencarnação no mediunato com Jesus, têm de fazer igual ao décimo segundo dos discípulos do amado Mestre e Amigo, dando testemunho de vitória pessoal, suportando as duras provações que os pobres de espírito impõem nesse mundo redentor,onde devemos estacar nossa cruz, aquela que nos alçará ao chamado Reino dos Céus, construída a consciência do dever bem cumprido.”

 

 

 

 

 

 

 

Advertência Oportuna

"Será bastante trazer a libré do Senhor, para ser servidor seu? Bastará dizer: "Sou Cristão", para que alguém seja um seguidor do Cristo? Procurai os verdadeiros cristãos e os reconhecereis pelas suas obras." (SIMEÃO, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVIII, item 16)

 

C

om voz adocicada, ela discorria sobre o Evangelho, num tom conselheiral, denotando grande preparo, fazendo-se crer um espírito já de escol, vencedor nos embates da existência:

- "Vocês, meus irmãos, devem seguir os passos do meigo Galileu, que não teve uma pedra de sua para repousar a cabeça, mas foi o ser mais rico de amor que a Terra conheceu. Eis o ensino: é preciso desapegar-se dos bens terrenos para conquistar o Reino dos Céus, ou seja, a felicidade espiritual."

Em nenhuma das palestras por ela proferida, escutou-se-a integrada na mensagem, como se os demais fossem os únicos necessitados da luz doutrinária.

Ao final de cada mês, os seareiros das sessões doutrinárias e mediúnicas confraternizam em encontro de fortalecimento e de orientações.

Na última confraternização, o Mentor da casa espírita, manifestando-se por intermédio do médium mais antigo e acatado, interpelou Maria:

- "A estimada irmã poderia responder à curiosidade deste seu confrade que, agora desencarnado, conhece de perto os seus esforços na busca da ampliação dos conhecimentos doutrinários, que lhe vem acompanhando as preleções evangélicas e que não desconhece a atuação espiritual para que não lhe falte boa inspiração ?

- "Como não!... Estou sempre pronta" - anui a interpelada surpreendida.

- "O objetivo da expositora doutrinária é fazer com que as pessoas escutem e aproveitem as palestras, tenham ouvidos de ouvir, não é assim ?"

- "Evidente" - concorda Maria Ercila.

- "No entanto, minha cara confreira, sua palavra esquece o fraternal pronome, aquele que, por ser integrativo, pluraliza a primeira pessoa. Em momento algum, a sua voz qualifica o ‘nós’..."

- "É..."

- "Quando estávamos laborando ainda no plano das formas, entre os encarnados, compenetrados no dever de estender, desde o púlpito de nossa Igreja, a divina mensagem do Cristo, cometíamos o mesmo equívoco, também por ignorância, já que pessoa alguma chamara-nos a atenção.

“Após o desencarne, enfrentando a verdade pessoal, amargurado por não encontrar as recompensas que acreditávamos haver merecido, depois de uma vida de pregação do Evangelho do Senhor, procuramos o esclarecimento dos Espíritos Superiores. Na primeira oportunidade, indulgente, um dos Amigos Espirituais interrogou-nos sobre nossos méritos. Narramos-lhe quem fomos e ele ouviu-nos paciencioso, como se não soubesse... Ao final, ponderou:

- ‘Duas coisas, querido amigo, faltaram-te ao abençoado sacerdócio: a primeira, que a nossa mensagem deve ser dirigida a todos os ouvidos, inclusive ao mais próximo, que é o do próprio mensageiro; a segunda, consequência da anterior, é decodificar a mensagem, transformando-a em utilidade vivencial, a fim de que o nosso exemplo seja a força complementar do que dissermos.

"Então, descobrimo-nos deficitário, com a personalidade em sua real dimensão, solicitando vaga no serviço de auxílio aos que têm a responsabilidade de espalhar a Boa-Nova de Jesus para a gentilidade terrena, para que não cometam os nossos enganos, sendo mais felizes.

"Por isso tudo, querida irmã, de agora em diante, não seria bom falarmos primeiro para nós mesmos? Até porque, se nós não entendermos a mensagem que verbalizamos, quem poderá entendê-la?"

 

 

 

 

 

 

 

O Espírita Iniciante

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más." (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 04)

 

A

rtidor estava contente por haver conseguido convencer sua esposa a conhecer o centro espírita que frequenta em seu bairro. Antes de sair de casa, ainda garantiu:

- "Meu bem, tu vais gostar. A doutrina vai ao encontro das nossas necessidades e nos ensina muita coisa boa para nossas vidas..."

Dona Inelva mais preferia aproveitar o horário para assistir à novela, mas já não encontrava desculpas para deixar de aceitar o insistente convite do marido. "O jeito - pensou - é fazer a vontade dele, nem que seja desta vez."

Taciturna, intimizada em suas reflexões, nem escutava direito a conversa de Artidor, satisfeito:

- "O passe faz um bem! A gente sai mais leve..."

Inelva ingressou no recinto da sessão pública como quem chega para o sacrifício.

            Sentou-se de má vontade, reclamando mentalmente do desconforto dos bancos de madeira.

Foi pronunciada a prece inicial, com posterior leitura evangélica e comentários do expositor designado para aquela noite.

A visitante pôde ouvir a lição referente aos bons espíritas que, dentro das características do homem de bem elencadas pelo Evangelho, é o verdadeiro cristão na vivência da moral inarredável do Cristo, a facultar fé esclarecida e inabalável, com uma visão inteligente e clarificada quanto ao futuro.

            Desde o encerramento da sessão, Dona Inelva nada comentou, o que só fez quando instada a isso, já em sua casa:

- "É... Os Espíritos ensinam uma boa doutrina, mas que não tem valido para ti."

- "Por quê?!" - interroga surpreso, o marido.

- "Se nos manda domar as más inclinações e nós prosseguimos iguais, estamos perdendo tempo ou ouvindo mal. É o teu caso, Artidor, porque continuas ranzinza como sempre, reclamando de todos e de tudo. Até agora parece que não renovaste o comportamento pessoal..."

- "Esqueces, minha querida - interrompeu-lhe o esposo -, que tempos atrás eu não apenas reclamava, brigava feio mesmo... Pelo que vejo, alguma coisa melhorei..."

- "Nisso tens razão" - anui a mulher.

E Artidor aproveita para arrematar:

- "Os confrades do centro espírita têm lecionado que devemos imaginar o que fomos em vidas anteriores pelo que hoje somos. Assim, aquele que agora grita e ofende, antes certamente feria e violentava; aqueles que choram as dores de variegadas aflições já foram algozes insensíveis afligindo aos semelhantes...

“A natureza revela que o progresso não dá saltos, que não é possível colheita sem plantação. O importante é a consciência da necessidade de melhoria, sem se esquecer do tentame indispensável para isso. O verdadeiro espírita, portanto, segundo aprendi, encontra-se em permanente tentativa de melhoria pessoal..."

 

 

 

 

 

 

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